Requinte e sofisticação elevam padrão estético do artesanato alagoano

Fincado nas raízes ancestrais da cultura popular, trabalho autoral de mestres artesãos ocupa espaço no mercado de luxo e se torna negócio promissor

Por Emanuelle Vanderlei e Valdirene Leão - Repórteres / Bruno Martins - Revisão / Adailson Calheiros e Divulgação - Fotos de capa | Redação

Tradicionalmente conhecido e respeitado como parte fundamental da identidade cultural de Alagoas, o artesanato vem ganhando novos horizontes nos últimos anos. Com o artesanato autoral, tendência cada vez mais crescente no mercado, a beleza das nossas raízes ancestrais ganha personalidade e tom luxuoso, e começa a ocupar espaço nas passarelas mundiais, nas galerias de arte e nas decorações assinadas por arquitetos renomados.

Nesta série de três reportagens, o portal Tribuna Hoje apresenta o trabalho desenvolvido por três grupos produtivos que estão fazendo história ao revolucionar o artesanato alagoano com produções cada vez mais sofisticadas e criativas e, dessa forma, colaborando para manter viva a arte passada de geração em geração, trazendo oportunidade e renda em suas comunidades. Os grupos produtivos Luarte, do Pontal da Barra, em Maceió; Fulô.A, de Penedo; e Ateliê Boca do Vento, da Ilha do Ferro, no município de Pão de Açúcar; estão no TOP 100 do Artesanato Brasileiro, prêmio do Sebrae que reconhece as 100 unidades de produção artesanal mais competitivas do país.

Esses e outros artesãos vêm dando um banho de originalidade e a cada ano eles ganham mais notoriedade. Isso porque têm talento e contam com o apoio de instituições como o Governo do Estado, por meio do programa Alagoas Feita à Mão; do Programa do Artesanato Brasileiro (PAB) do Governo Federal; do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), que desenvolve várias ações para protagonizar o setor; e do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), que oferece linhas de crédito e orientações.

A série de reportagens, que começa com o mais recente grupo produtivo, o Fulô.A, ouviu também a coordenadora do Programa de Artesanato do Sebrae, Marina Gatto, que explica bem esse novo momento do setor em Alagoas; além de uma arquiteta que costuma utilizar elementos da arte popular em seus projetos; e um amante do artesanato feito à mão que abriu as portas do seu apartamento, onde mantém um acervo particular, para as lentes do repórter fotográfico Adailson Calheiros.

'As casinhas que eu desenho são inspiradas na casinha de taipa da minha avó. A casinha tinha porta, janela e o telhado era pontudo. A inspiração é das casas da época que eu morava lá. O que tem na zona rural é a minha referência' - Ana Cristina Ferreira.

Bordado do Fulô.A foi um dos destaques do desfile “Fios e Tecidos”, realizado no Palácio Floriano Peixoto, em Maceió, este ano (Foto: Assessoria)

Das casas bordadas às vitrines de Nova Iorque

Com seu artesanato autoral, a mestra Ana Cristina buscou a sobrevivência e transformou a vida de mulheres da sua comunidade rural

Viúva aos 20 anos, com duas filhas pequenas para criar, Ana Cristina encontrou no bordado uma fonte de renda. “Foi quando o meu marido morreu, que eu levei o bordado mesmo a uma profissão, uma coisa séria. A minha única renda era a renda que eu conseguia no bordado. Aí as minhas duas filhas, mesmo crianças, me ajudavam, elas começaram a bordar com sete anos”.

Com espírito empreendedor, Ana Cristina Ferreira, que agora já recebeu dois títulos de Mestra, sempre contava com as iniciativas do Sebrae. Foi assim que, em etapas diferentes, construiu a Fulô.A, negócio com alcance internacional. Primeiro foram as rodadas de negócio, que a fizeram perceber a necessidade de expandir. “Nós três que fazíamos o bordado. Só que eu percebia, quando eu ia para as rodadas de negócio, para os eventos do Sebrae, que as pessoas não tinham confiança de fazer uma encomenda grande, porque só éramos nós três. Aí foi que eu senti a necessidade de colocar mais gente no grupo”.

Ana Cristina encontrou no bordado uma fonte de renda quando ficou viúva aos 20 anos com duas filhas para criar (Foto: Kamylla Feitosa / Ascom Semclej)

No povoado de Riacho do Pedro, no município de Penedo, ela criou um grupo produtivo. “Eu fui atrás das meninas da minha família, pessoas conhecidas e que eu queria ajudar também. E aí hoje elas são 30. Porque lá no interior o único trabalho que tem para a mulher é a roça, a casa de farinha ou a pesca. Então, quando eu cheguei com o bordado também, elas ficaram muito felizes, porque ia ser uma forma delas trabalharem em casa sem precisar de tanto sacrifício e conseguir ganhar o dinheirinho delas”.

Grupo produtivo do povoado de Riacho do Pedro, em Penedo, conta hoje com 30 bordadeiras (Foto: Divulgação)

Ao crescerem, as filhas seguiram outros caminhos. “Elas se formaram. Uma é fonoaudióloga, trabalha. A outra é gestora de artesanato do Governo de Alagoas. Então cada uma tem um trabalho diferente”.

O Fulô.A passou por mais uma grande reviravolta anos depois. Foi por meio de um projeto do Sebrae que o trabalho com o bordado mudou de patamar. “Em 2014 teve um projeto do Sebrae, o Brasil Original. Aí foi quando a designer veio e deu uma repaginada para poder ficar com um trabalho com identidade, com a marca própria. Antes, a gente bordava igual a todo mundo, não tinha norte certo para a gente seguir. E depois que essa designer chegou, foi que ela me orientou, aí a gente criou uns colares de casinha na época”.

A orientação fugiu dos padrões que ela estava acostumada, mas, mesmo com o estranhamento, ela seguiu o caminho e direcionou suas criações. “Eu falava: ‘Eu vou fazer, mas eu acho que essa mulher é louca’. Porque eu achava que, para o pessoal gostar de acessório, tinha que ter o brilho, tinha que ter aquelas coisas que a gente encontra na maioria das peças de acessório. Mas graças a Deus deu muito certo e através dessas ideias eu comecei a criar os modelos. Todos os modelos sou eu que crio”.

Almofadas ganham mais charme com os bordados temáticos (Foto: Reprodução / Instagram da Fulô.A)

A primeira prova com a clientela foi em Maceió. “Teve uma loja no shopping, foi lá onde a gente testou todos os produtos. E graças a Deus deu muito certo. Hoje, o grupo tem 30 mulheres e a gente já exporta também. Onde a gente chega com os produtos é o maior sucesso”.

Carregadas de significados, as peças são inspiradas no lugar onde elas vivem. “Todas essas casinhas que eu desenho são inspiradas na casinha de taipa da minha avó. A casinha dela tinha uma porta, uma janela e o telhado era pontudo. Então, a inspiração da casa de taipa, das casinhas, é das casas da época que eu morava lá. Tudo o que tem na zona rural é a minha referência. Lá tem pássaros, árvores. Eu faço colar de pássaros também. Agora mesmo estou com uma encomenda grande de colar de pássaros para exportar”.

TOP 100

O grupo produtivo de Ana Cristina tem uma linha de produção diversificada, com assessórios, linha casa, vestuário e decoração. A técnica de bordado figurou na última edição do Top 100 do Artesanato Brasileiro, realizado em 2022 pelo Sebrae. O Colar Casa de Taipa, o Colar Casa de Ripa e o Kimono Anne foram os premiados e carregam o selo TOP 100 por onde vão.

Peças criada por Ana Cristina figuram têm o selo do Sebrae TOP 100 (Imagem: Reprodução)

Em abril deste ano, uma colaboração entre estilistas alagoanas e nove entidades produtivas do estado levou a arte do bordado de Ana Cristina para as ruas de Milão, capital mundial da moda, localizada na Itália, por meio do Programa Alagoas Feita à Mão. Integram a coleção Fios e Tecidos, assinada pelas estilistas Fiama Pimentel e Maria Eugênia, também produções da Cooperativa Cooperartban, Cooperativa Art Ilha, Associação Mimos de Dona Peró, Grupo Produtivo Amor Caseado, Associação Casa do Bordado, Grupo Produtivo Mestra Clarice, Grupo Produtivo Nossa Singeleza e Grupo Produtivo Tecelãs.

Os looks foram apresentados em contextos reais tendo as ruas como passarela durante a Semana de Design de Milão. As peças apresentadas ao povo milanês são carregadas da identidade do povo alagoano.

Fulô.A ganha as ruas de Milão durante a Semana de Design (Foto: Ericles Vitor / Agência Alagoas)

A criação de Ana Cristina começa a mexer com as emoções desde a sua produção, quando mostra o desenho para as companheiras. “Tudo que eu faço no meu bordado é a história do povoado que a gente mora. Então elas também vivem isso. É tanto que agora a gente fez a coleção Encantos da Alma Rural. Eu fiz o desenho, a mulher rezando que lá tem muita benzedeira, tem até uma que borda que ela reza. Aí, quando elas veem os desenhos que eu faço, dizem: ‘Ó, essa é o meu pai com a enxada indo para roça, o burrinho com a mandioca’. Então a gente retrata a vivência da gente na zona rural”.

Ana Cristina ensina o bordado a mulheres do povoado onde viveu na infância (Foto: Kamylla Feitosa / Ascom Semclej)

Com tanto significado, o trabalho chamou atenção em uma feira fora do país, abrindo as portas para a exportação. “A gente participou de uma feira que foi apoiada pelo Sebrae e pelo governo, que foi fora do Brasil, na Colômbia. A gente mandou duas peças. Essas duas peças fizeram o maior sucesso. Então essa moça foi visitar essa feira, viu o colar de casinha e, através dessa feira, eu comecei a exportar para ela. Para ficar mais fácil, eu mando tudo para São Paulo, que ela tem um pessoal que mora aqui em São Paulo [cidade onde estava durante a entrevista] e daqui eles levam para ela, em Nova Iorque”.

A demanda norte-americana é sempre grande, elas normalmente precisam de mais tempo para entregar. “A gente não dá conta logo. Quando ela pede, é uma encomenda grande. Então a gente precisa, tipo assim, de uns três meses para fazer”.

Bordado também dá asas à imaginação em peças de decoração (Foto: Reprodução / Instagram da Fulô.A)

O faturamento da microempresa chega a R$ 80 mil por ano e as bordadeiras recebem normalmente de acordo com o que conseguem produzir. “Têm umas que conseguem tirar um salário mínimo, têm outras que consegue tirar R$ 200. Elas trabalham em casa nas horas vagas. Não é uma coisa que elas têm hora marcada para trabalhar, é uma renda extra. Trabalhando uma média de quatro horas por dia, elas conseguem um salário mínimo”.

Hoje, é possível encontrar as peças da Fulô.A em várias cidades. Aqui em Alagoas estão em Penedo e Maceió. Pelo Brasil, há lojas físicas vendendo em São Paulo, Salvador e Rio de Janeiro. E no exterior, as peças podem ser encontradas em Nova Iorque. Mas isso não resume o público da loja, já que a maior arrecadação é virtual. “A maioria das vendas é para o Brasil todo pelo Instagram”.

Planos para crescer? Só quando conseguir mais mão de obra. “Se for para expandir, primeiro eu tenho que aumentar mais o grupo. Porque a maior dificuldade é encontrar pessoas que queiram bordar. Eu não tenho dificuldade em vender as peças, a maior dificuldade é ter a mão de obra para trabalhar. Hoje eu já sou mestra artesã, mas a maior dificuldade é essa”.

“Artesanato autoral é tudo que sai do comum, que tem identidade própria”

O sucesso de Ana Cristina com a Fulô.A reflete o momento vivido pelo artesanato alagoano com suas produções autorais. Marina Gatto, que coordena o Programa de Artesanato do Sebrae Alagoas, relata vários fatores que interferem nessa mudança de mercado. Desde um trabalho de educação da população para reconhecer e valorizar suas raízes, passando pelo apoio aos artesãos que profissionalizam seus negócios, até a divulgação em outros estados e países. É perceptível a mudança e os resultados são palpáveis. “Não é uma trajetória fácil, mas ela é real, ela existe. Na realidade de Alagoas existem alguns que já vivem disso e vivem muito bem, inclusive”, constatou.

Diferente do artesanato popular, que deu origem a tudo, o artesanato autoral traz o tom de exclusividade, de peça única. “Quando falamos do artesanato autoral, é aquele artesanato que tem uma identidade própria, única daquele indivíduo ou grupo. Eu gosto muito de dizer, para simplificar, aquele artesanato que você olha e consegue identificar de quem é, quem fez aquela peça. Então, ele tem um valor agregado muito alto, principalmente aquele que são formados por peças que têm um design por trás ou que têm uma história, um elemento cultural diferenciado. A forma de fazer aquele produto ela é diferenciada dos demais. É tudo aquilo que sai do comum”.

Gatto avalia que o crescimento dessa modalidade reflete uma mudança de comportamento no mercado consumidor, em uma tentativa de fazer o contraponto à vida acelerada e à produção em massa. “O feito à mão, tudo que vem dessa história do que não é artificial, nem industrial, ele vem à tona nos últimos anos e nos próximos. Principalmente por isso, por estarmos já cansando de tudo que é falso, das relações que não são mais humanas, da falta do olho no olho. E o artesanato, ele consegue traduzir isso. Porque ele, como vende emoção, vende também história. As pessoas estão começando a se conectar um pouco mais com isso”.

Marina Gatto, que coordena o Programa de Artesanato do Sebrae Alagoas: "artesanato autoral é aquele que você olha e consegue identificar de quem é, quem fez aquela peça" (Foto: Julio Vasconcelos / Ascom Sebrae)

Nesse sentido, vários segmentos da economia são atingidos. “Está tendo na decoração, no design, na própria moda, no próprio turismo de experiência, em que se utilizam muito os trabalhos manuais como uma ferramenta também de conquista do território com o turista”.

O que é nosso encanta, ressalta Marina. “Quando vamos ao Sul, Sudeste, quando esse consumidor vê os produtos do Nordeste, principalmente de Alagoas, eles se encantam, porque eles nunca conheceram aquele bordado, aquelas rendas. A matéria-prima das nossas cerâmicas e madeiras que são inusitadas, únicas. Ele fica encantado porque não tem isso, principalmente nas grandes cidades, que vão perdendo ao longo do tempo essa cultura de como eram antigamente, de como se faziam determinadas coisas, como era tradicionalmente, porque o mundo se sobrepõe a isso”.

A dificuldade, ou a falta de oportunidades, muitas vezes contribui com a preservação do original. “Aqui em Alagoas, ainda temos muito disso. Existem comunidades que fazem as coisas da forma que dá. O barro é tratado dentro de casa, é feito tudo à mão. Muitos nem usam forno, é feito à mão mesmo, é moldado. Aquele bordado, que é feito desde a bisa, da tataravó, passou. Então isso lá fora é valorizado”.

Profissionalizando o negócio para geração de renda

A oportunidade está acontecendo pelo mundo, mas o fortalecimento do mercado local só é possível porque existe capacidade para absorver a demanda. E aí é que entra o papel da educação de toda uma população, para construir uma produção que agrega o valor cultural com o padrão comercial. “Para isso acontecer, o artesão precisou e precisa ainda muito se adequar à gestão do negócio, a se enxergar como empreendedor. Ele tornar aquilo que ele sabe tanto fazer, que é a produção, a técnica, ele transformar isso em geração de renda. Ele monetizar essa forma. Então ele só consegue isso se preparando. Ele tendo um valor de mercado procurando saber e se posicionar, ele precisa se posicionar e saber como ele quer se posicionar e para que público ele vai se posicionar. O artesanato ele tem um nicho de mercado bem específico”.

Casinhas imprimem ar de delicadeza a pufe (Foto: Reprodução / Instagram da Fulô.A)

Isso tem impacto direto até no que se pode cobrar pelo trabalho. “Temos o artesanato que eu falo que é o mais popular, aquele que pode ser utilizado como souvenir, aquele que é o próprio crochê, um artesanato mais comum, mas o artesanato autoral, ele tem um nicho de mercado muito forte. Então, estamos, claro, hoje desde galeristas a lojistas, mas de consumidor final principalmente, vendo que as pessoas estão se interessando por essas peças únicas. E que o preço é apenas consequência do valor que está colocado na peça, de que é aquela história que aquela peça passa, então ela é um pouco diferente quando falamos de valor e de preço”, explica Gatto.

Segundo ela, o valor ele é muito mais o que o consumidor percebe e do que aquele artesão também consegue passar. “Do tempo de como é feito, a técnica, a história que está ali por trás, a quantidade de pessoas envolvidas, a forma de se fazer, a unicidade de se ter aquela peça. Então, isso tudo se torna um valor e aí é traduzido em preço e com certeza ele tem um valor diferenciado, um alto valor, maior do que um valor de uma peça de artesanato mais comum”, acrescenta.

Treinando o olhar das novas gerações

Investir em educação para a construção de gerações que valorizam esse trabalho é um fator que interfere nisso. E o Sebrae Alagoas vem atuando nesse campo. “Através também da educação empreendedora, que temos um projeto no Sebrae para levar essas temáticas importantes, principalmente para dar a potencialidade de Alagoas economicamente, do que temos de riqueza, dentro das escolas”.

A iniciativa depende da parceria com as gestões municipais, e por isso não alcança todo o estado. “Nem sempre conseguimos acesso a essas escolas, nem todos os municípios conseguem aderir, alguns não têm interesse. Mas organicamente isso acontece bastante”, avaliou a coordenadora do Sebrae.

Segundo ela, há uma atualização nas grades curriculares das escolas particulares que traz alguns detalhes da história que ficavam esquecidos antigamente. “É mais fácil vermos dentro da grade curricular dos alunos os mestres de Alagoas sendo abordados, o artesanato de Alagoas. Quando falamos sobre a colonização do Brasil pelos portugueses, hoje essa geração já consegue aprender que aqui já existiam os indígenas. E aí eles já aprendem que as artes, os artefatos indígenas aqui já existiam, que eles são artesanatos nossos”.

Sebrae leva conhecimento sobre artesanato a escolas, entre eles o de que o bordado filé (acima) foi trazido pelos portugueses e adaptado à cultura local (Foto: Reprodução / Instagram do Luart)

O que hoje é patrimônio vivo, tem uma origem que já começa a ser passada nas escolas. “Culturalmente, eles já começam a entender, de várias outras artes que vêm desde deste século como o próprio Bordado Filé, que veio trazido pelos portugueses também para cá e adaptada para nossa cultura, para nossas cores, nossas formas. Eles já conseguem aprender isso dentro das escolas. Como existem também iniciativas do próprio grupo de artesãos que consegue se inserir fazendo oficinas dentro de escolas públicas, para repasse da técnica”.

O sucesso da arte alagoana que tem destaque em outros estados, e até países, desperta interesse das instituições. “Como existe também essa valorização e se fala muito hoje do artesanato, do que é nosso, tão rico fora, infelizmente só conseguimos valorizar o que temos quando os de fora valorizam o que é nosso. Então isso está acontecendo. As próprias escolas também estão buscando. Eu já vi escolas homenageando, fazendo trabalho sobre a mestra Vânia de Oliveira. A própria escola já procura a mestra para levá-la para dentro da sala de aula e falar um pouco daquilo que ela faz. Então, isso vem acontecendo naturalmente. Não ainda da forma que seria o ideal, mas é o início”.

Tendência mundial

O sucesso lá fora é uma realidade que envolve toda uma cadeia produtiva, desde arquitetos a estilistas. “Quando vemos grandes arquitetos, e eu digo nacionalmente, que começam nos seus projetos a inserir produtos artesanais, os feitos manuais em seus projetos, isso é uma educação do consumidor, eles começam a entender que aquilo realmente é legal. E o outro lado dizer: ‘Isso aqui é de um território, isso aqui tem uma história tal, isso aqui é feito à mão.’ Começa a voltar um pouco disso, o que valoriza um pouco aquilo que não é tão artificial. Isso é uma tendência mundial e o artesanato está pegando esse mote”.

As passarelas estão tomadas pelo toque artesanal. “Eu falo da decoração, mas também da moda. Os últimos desfiles agora, da moda mundial, quase todas as grandes marcas, conhecidas aí no mundo todo, trouxeram o feito à mão em todas as suas coleções. Todas têm. Primeiro que é trazendo o que é único, o que é diferente, e trazendo a sensação, eles sempre falam assim: ‘a sensação de conforto, de lembrança, de você estar vestindo algo que é sustentável, algo que você está ajudando’. Isso tudo está vindo muito à tona, então, está na moda, não só pela beleza e pelo design, mas o que significa você ter hoje uma peça artesanal dentro da sua casa ou no seu vestuário”.

A economia tipo exportação do artesanato em Alagoas

Traduzir esse mercado em números, ainda é um desafio. “Não temos dados, temos uma dificuldade. E a gente, quando eu falo, não é Sebrae, eu falo de Brasil, temos uma dificuldade muito grande de conseguir dados sobre o artesanato. Na pesquisa do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] é muito difícil quando o pesquisador vai na casa de um artesão e escuta ele dizer ‘sou artesão’”, afirmou Marina.

Isso porque, apesar do crescimento exponencial do setor, ainda há muita gente na área precisando ter outros trabalhos para completar a renda. “A maioria tem uma outra função. Então, ele normalmente não fala que é artesão. Os que vivem de artesanato nem sempre são entrevistados. Não existe uma formalização que temos acesso aos dados. Hoje existe a carteira de artesão que é o documento que comprova que aquele profissional realmente ele faz artesanato, mas não é um acesso público. Não existe um lugar onde é possível acessar quem são os artesãos, onde eles estão. Só conseguimos enxergar números gerais, em cada estado, quantos artesãos têm. Em Alagoas, temos por volta de 18 mil cadastrados. Mas sabemos que esse número é muito maior. Porque vamos andando por vários povoados, em diversos municípios, e vemos que ainda existe uma quantidade muito grande de artesão que não possuem a carteira”.

Mesmo assim há um trabalho concreto sendo realizado que já se traduz em presença no exterior. “Muitos deles já conseguem mandar para fora, mas isso vai acontecendo de uma forma de procura muito mais do comprador. Já temos algumas iniciativas com retorno. Trabalhamos muito junto com a Apex [Associação Brasileira de Exportação e Investimentos], que é a entidade que trabalha exportação e hoje já existe um programa específico para o artesanato. E começamos no ano passado essa iniciativa capacitando alguns artesãos que têm uma maturidade maior, porque até o frete, tudo isso eles vão ensinando, como são essas formas, e as dificuldades que temos no setor”.

Alagoas tem 18 mil artesão cadastrados, mas número deve ser maior, visto que muitos não possuem a carteira (Foto: Divulgação)

O trabalho para exportação requer um esforço maior em detalhes que muitas vezes é preciso adequar. “A madeira precisa ter uma certificação para ser exportada. E aqui não temos, em quase nenhum dos lugares do Brasil, a madeira certificada. Que isso são coisas muito complexas de se fazer e com custo altíssimo para você conseguir certificar a madeira. A fibra para entrar no outro país, tem que ver como é que são as relações entre países. Quais são as leis de cada país. Muitas fibras vegetais e naturais não podem entrar sem ter um selo, uma certificação específica”.

Mas há produtos mais fáceis de trabalhar. “Existem algumas matérias-primas que têm uma dificuldade maior, mas quando vamos para os bordados e as rendas, isso acontece de uma forma mais fácil. Porque não têm tanta restrição. A restrição muito maior é a maturidade, gestão e entrega. E elas estão sendo capacitadas. Então, ano passado já tivemos artesãos contemplados em editais internacionais que já colocaram os produtos, tanto na Colômbia quanto em Portugal. E já com esse convênio com a Apex. Este ano vão ter mais algumas iniciativas”.

Está sendo aberta uma trilha pela Apex e alguns clientes do Sebrae devem participar. “É uma trilha de orientação para internacionalização dos produtos específicos para artesanato, alguns se inscreveram, eu acho que uma média de 20 a 30, eu não sei se está atualizado. Então, são iniciativas que a gente tem que entender como é que está funcionando, os gargalos de cada um, para podermos ir expandindo. Mas esse é um projeto que está sendo iniciando, porque temos artesãos com produtos prontos para o mercado internacional, o que é preciso é preparar o artesão para conseguir fazer isso”.

O Governo do Estado também tem contribuído. “Temos hoje o Governo do Estado também através do programa Alagoas Feito à Mão, levando o artesanato de Alagoas para alguns países, como forma de exposição. Recentemente, em Milão, um grande evento de design, o Alagoas Feita à Mão levou peças de mais de 30 artesãos”.

A dificuldade de capitalizar ainda mais essa visibilidade é a logística, afirma Marina Gatto. “Muitos deles ainda precisam do antigo atravessador. De algum lojista que faça isso porque eles não conseguem. Imagina, você mandava fazer peças da Ilha do Ferro, que é uma demanda muito grande. Como é que você certifica essa madeira, leva no navio?”.

De mãos dadas com o Sebrae

Quase tudo o que é visto de artesanato alagoano nas feiras e exposições dos artesãos passa pelo Sebrae. “Os que conseguem, tanto pelo Sebrae, quanto pelo Governo do Estado ou municípios, estão presente em grandes eventos nacionais específicos de artesanato. Eu posso dizer com clareza que 95% são clientes do Sebrae. São eles, os artesãos que conseguem passar em edital, que conseguem mostrar o seu produto para estar contemplado em outros grandes projetos de artesanato. Até porque acontece, alguns chegam nesses editais ou no próprio governo, querendo participar de alguma coisa, eles já indicam que passa pelo Sebrae primeiro”, concluiu Marina Gatto.

Quase todos os artesãos alagoanos que participam de feiras e exposições passam pelo Sebrae (Foto: Julio Vasconcelos / Ascom Sebrae)